Palácio das Águias

No centro de Lisboa, fica um antigo palácio com mais de 300 anos, o “Palácio das Águias”, que remonta a 1713. Já tinha este palácio na lista para visitar há bastantes anos, mas nunca surgiu a oportunidade perfeita, até receber uma chamada da RTP. Indicaram-me que estavam a fazer uma reportagem sobre palácios abandonados em Lisboa e que tinham interesse em falar comigo, combinámos encontrarmo-nos na Quinta das Águias, para gravarem uma entrevista comigo e filmarem o imóvel.
Aproveitei logicamente para explorar o local e tirar algumas fotografias.

O palácio foi construído por Manuel Lopes Bicudo (Advogado), em 1713, para viver com a sua mulher. Em 1731 (18 anos depois), o advogado vendeu a propriedade a Diogo de Mendonça Corte-Real, secretário de estado durante o reinado de João V. Diogo de Mendonça, fez várias alterações no palácio e jardins, incluindo a construção de uma capela. A obra ficou a cargo do artista francês Pierre-Antoine Quillard, pintor da corte de D. João V.

Àquela casa, Corte-Real dedicou os seus últimos cinco anos de vida (faleceu em 1736), e organizou grandes bailes e galas. Entre os convidados de algumas destas festas, esteve o próprio rei de Portugal, D. João V. A casa foi herdada pelo filho, Diogo de Mendonça (tinham exatamente o mesmo nome), que também serviu o rei — não D. João V, que faleceria em 1750, mas o filho que lhe sucedeu, D. José I. No início, foi nomeado em pompa e circunstância, Secretário de Estado da Marinha e dos Negócios Ultramarinos. Só que a relação não durou muito: D. José I ficou tão insatisfeito com o trabalho do “júnior” que, seis anos depois, obrigou Diogo de Mendonça a sair de Lisboa.

Durante os primeiros anos de exílio, a quinta ficou aos cuidados de uma governanta francesa, Maria Josefa Catherine du Pressieux. Em 1758, Diogo de Mendonça arrendou a casa à filha, Maria Francisca. Diz-se que Diogo de Mendonça queria deixar a casa à filha quando morresse, porém, Maria Francisca não soube cuidar daquela que seria a sua futura herança. A quinta ficou em mau-estado e Diogo de Mendonça recuou na vontade de lhe dar a propriedade. Estávamos em 1764. Nesse mesmo ano, a mulher foi exilada para Angola — ninguém sabe bem porquê — e começaram as disputas entre a família.

A batalha legal pela Quinta das Águias durou 73 anos. A justiça acabou a decidir em favor da Santa Casa da Misericórdia, o conselho que representava uma parte da família. Venderam imediatamente a casa, pois tinham 73 anos de honorários de advocacia para pagar. Nas décadas seguintes, o palácio foi passando de proprietário em proprietário. Em 1890, foi adquirido pelo médico e professor Fausto Lopo Patrício de Carvalho, que efetuou obras profundas na casa e nos jardins. O projeto de restauro contou com a colaboração dos arquitetos Vasco Regaleira e Jorge Segurado.

O palácio, de planta regular em forma de quadrilátero, desenvolve-se através de um conjunto de volumes de 3 pisos, realçado nos cantos por torreões salientes de secção quadrada. No interior, merecem especial referência a capela datada de 1748, de planta quadrada, com galeria superior limitada por balaustrada de madeira e silhares de azulejos setecentistas. O jardim apresenta traçado setecentista, com muretes de azulejos azuis e brancos representando cenas de caça, bustos de mármore e espécies vegetais notáveis.

O nome Quinta das Águias já vinha desde os tempos de Diogo de Mendonça Corte-Real (o pai), mas foi nesta altura que foram construídas águias de pedra, incluindo em ambos os lados do portão principal. A propriedade fez parte do legado da família Carvalho até 1990 e desde então, ninguém sabe ao certo o que aconteceu. A quinta caiu nas mãos dos bancos e pertence atualmente a um fundo do BES.

Parte da história foi retirada do jornal NIT, site da Câmara Municipal de Lisboa e página do facebook Lisboa de Antigamente. A entrevista que dei à RTP e a reportagem sobre este e outros locais abandonados deverá sair em breve, colocarei o vídeo aqui quando for transmitida.

André Ramalho

Sou um apaixonado por fotografia e locais abandonados, e por isso resolvi criar este blog, com o intuito de partilhar os meus registos e aventuras.

8 thoughts on “Palácio das Águias”

  1. Olá André, estou a fazer o meu projeto final de mestrado com base no Palácio. Como conseguiste entrar? Falei com a CML e eles não me souberam dizer quem são os proprietários. Gostava de puder visitar o recinto.
    Diz-me qualquer coisa, sff
    Beijinhos

  2. Muito bonito . Conheço de passar por lá todos os dias. É uma tristeza ver o estado em que se encontra. Não haverá por aí alguém com dinheiro e bom gosto que pegue nele e o recupere ? Aqui fica uma sugestão à Câmara de Lisboa que têm dinheiro para tantas outras coisas ….
    Já agora , não haverá por aí alguém que tenha acesso ás plantas e alçados do edifício ? adorava fazer em 3d todo o projecto da propriedade para apresentar como trabalho final da minha formação.

  3. eu tive a oportunidade de conhecer esse palacio por fora da ultima vez em que fui a Lisboa. mesmo estando castigado pelo tempo, ele é lindo!!!

  4. Soy española y viajé a Lisboa hace unos años. Pase por casualidad en autobús por esa calle y vi la mansión de pasada pero algo hizo que me quedara prendada de ella. Tiene algo especial que después de dos años sigo recordando. Me aprendí el nombre de la calle para averiguar cómo se llamaba esa mansión y saber más de ella. Insistí mucho hasta que lo averigüe. Me gustaría saber qué pasó exactamente para que la abandonaran y qué pasará con ella porque es algo que recurre a mi mente a veces. Gracias por tu post porque no hay mucha información sobre ella.

  5. É muito triste ver esta beleza abandonada! Uma obra de arte de 1713 deixada ao abandono…..tristes tempos estes! E o movimento ocupa poderia ter feito pinturas giras mas do que vi não gostei….parece que os ricaços deste país não têm bom gosto nem são sensíveis ao belo!!!!

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