Quinta das Memórias

Numa tarde de chuva, durante um fim de semana dedicado aos lugares abandonados, visitei esta quinta completamente isolada de tudo. Tivemos que deixar o carro alguns quilómetros antes e percorrer uma estrada de terra até encontrar o casarão, totalmente isolado e até mesmo um pouco sombrio.

Fiquei fascinado pelo tamanho da propriedade e por no seu interior ainda restar tanta coisa. Após tirar algumas fotografias, comecei à procura de informações sobre a história da casa, li algumas cartas e documentos que encontrei. Fiquei a saber que o dono da casa foi empregado bancário e faleceu em 1991, teve 8 filhos e pelo que entendi foram todos fruto de um primeiro casamento. A avaliar pelo tamanho da quinta, é óbvio que o senhor também estava ligado à agricultura. Após ficar viúvo, o senhor voltou a casar, não sei ao certo quanto tempo durou o segundo casamento, mas o que é certo é que pela altura do seu falecimento, já era divorciado.

Encontrei até um inventário de bens deixados datado de 1997 e nesse inventário vinham mencionadas todas as propriedades deixadas, incluindo esta casa e até mesmo o conteúdo da casa ao pormenor. Desde candeeiros, molduras e até mesmo o boi em barro vidrado, que está em cima de uma mesa nas fotos e que estava listado com um valor de 1.100 escudos, este e os outros itens estavam bem identificados e com um valor individual estimado ao lado.

A pergunta que se põe, com tantos herdeiros, porque razão ficou a casa assim? Presumo que tenha sido por causa de algum desentendimento relativamente às partilhas. Infelizmente, é muito comum em Portugal as casas ficarem ao abandonado, porque os herdeiros na altura das partilhas não chegaram a um consenso e o tempo foi passando, o assunto foi deixado de lado e a casa ficou esquecida.

Nota-se que esta casa, claramente não é habitada há mais de 20 anos, o chão inclusive está em péssimo estado, provavelmente dos sítios mais perigosos que já visitei. À medida que ia andando pelas salas, sentia constantemente a madeira por baixo dos pés quase a ceder, é uma sensação muito estranha, sentir o perigo, mas tentar ignorá-lo, sempre na esperança que corra tudo bem.

São riscos que se correm, eu pessoalmente que já me feri com gravidade numa das mãos durante uma exploração deste género e, portanto, sei bem o quão perigoso estas situações podem ser. Sei que por vezes, no calor do momento, se mede mal o perigo e, portanto, andei com todos os cuidados possíveis, felizmente correu tudo bem e a casa proporcionou excelentes fotos.

André Ramalho

Sou um apaixonado por fotografia e locais abandonados, e por isso resolvi criar este blog, com o intuito de partilhar os meus registos e aventuras.

2 thoughts on “Quinta das Memórias”

  1. Parabéns André! 🌼
    Sou brasileira, bisneta de português e apaixonada por seu país!
    Que trabalho maravilhoso!! Primeiro o de fotograr… guardar momentos, imagens, tesouros pra alma! Segundo, ir atrás dessas relíquias, lugares com história, que de alguma forma, fizeram sentindo para alguém! Amo isso!! 👏🏽👏🏽
    Minha admiração!!

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