Casa Azul

Esta casa com interiores azuis, tinha obviamente de ser apelidada de “A Casa Azul”, é sem dúvida alguma um dos melhores locais abandonados que já tive oportunidade de visitar. É uma casa muito antiga, onde tudo permaneceu como foi deixado. Pelo que pude apurar pelos documentos e cartas que encontrei no seu interior, foi habitada até finais de 2004, não pelos donos, mas por outra família que arrendou a casa nesses últimos anos.

Numa das divisões, podemos contemplar um altar, noutra um piano, num dos quartos um computador antigo e noutra divisão um quadro gigante com a árvore genealógica da família. Existem muitos livros, documentos e cartas espalhadas pela casa, com tanta informação e provavelmente viveram lá várias gerações da mesma família. Como alguns objetos pertenciam à família que arrendou a casa e outros aos donos da propriedade, é complicado separar tudo e contar uma história linear sobre a família/casa.

Mas com alguma investigação, fiquei a saber que a família provém de origens nobres, que o pai da proprietária da casa fez parte da contrarrevolução “monarquia do norte”, que ocorreu em 1919 e que posteriormente seguiu para a Bélgica como exilado político. A dona da casa teve 8 filhos, um deles enviava muitas cartas à mãe, cartas vindas de Angola onde era Alferes num navio das forças armadas, mas infelizmente essas cartas pararam de vir em 1968, ano em que morreu num desastre de viação com apenas 27 anos de idade.

Outra curiosidade interessante encontrada na casa, foram cartas abertas, mas ainda dentro do envelope, referindo-se a uma história de amor entre um dos filhos da proprietária da casa, que na altura vivia no Porto e uma senhora de Lisboa. Mostram alguns momentos da vida de cada um, exprimindo também alguma tristeza, da parte da senhora, pelo facto do seu pretendente não lhe ter contado alguns fracassos da sua vida, dizendo que “a vida a dois é para ser vivida nos bons e maus momentos”, mostrando ainda que as suas saudades pelo senhor eram fortes.

Estive no seu interior sensivelmente uma hora e meia durante a primeira visita e sinto que ficou muito por ver, explorar e fotografar. É daqueles lugares que são tão ricos, que podia passar lá um dia inteiro e por isso voltei uma segunda vez.

As fotos em baixo são uma mistura das duas vezes que lá fui, sei que outros fotógrafos foram lá também e dá-me ideia que fizeram um pouco de teatro no cenário, encenaram algumas coisas para que as fotos ficassem mais interessantes. Não é algo que eu faça, eu tiro fotos como encontro, mas sei que muitos fotógrafos de urbex o fazem, por isso se notarem diferenças entre as fotos já sabem o motivo.

André Ramalho

Sou um apaixonado por fotografia e locais abandonados, e por isso resolvi criar este blog, com o intuito de partilhar os meus registos e aventuras.

10 thoughts on “Casa Azul”

        1. Olá Daniel. Não forneço localizações a pessoas que não conheço, existem sempre muitas pessoas a pedir locais e não posso revelar para os preservar. Espero que compreenda.

          Cumprimentos,
          André Ramalho

  1. Que coisas incríveis que você descobre. Acho tão injusto que exista tanta gente a necessitar de uma casa, bens, etç. e no entanto há tantas casas, materiais, todo o tipo de coisas ao abandono, esses proprietários deviam de ser obrigados a doar ou vender(bem barato) essas casas e bens a quem necessita.
    Parabéns pelas fotos.

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